segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Você me traiu

[Escrito em 02 de dezembro de 2025]

Você me traiu. E me feriu.

E a desculpa (desculpa?) justificativa foi: eu esqueci.

E esqueceu depois de quatro dias. Ligou, chorando.

Eu não atendi. Não tinha o que conversar, mesmo.

A traição já tinha acontecido. E foi grave.

Não foi um fato. Um esquecimento. Você sabe.

Foi uma sucessão de abusos. Do meu corpo. Do meu tempo. Da minha (des) inteligência.

Eu já podia ter previsto, notado, entendido. Mas não. 

A gente é traída quando a gente acredita, né? Eu acreditei. Acredito, acho, nas pessoas. Mesmo quando não as conheço.

Será que te conheço? Ainda me pergunto hoje, dois anos depois. Eu não sei.

Diria Jung que a gente nunca se conhece por inteiro. Você traria uma frase do Jung nesta hora.

Eu iria rir. Porque não há nada a dizer quando se traz a psicologia onde não entra psicologia.

A amizade é nua. Crua. Simples. E não houve.

Antes que você pense: eu não te perdoei. Por isso, o meu silêncio.

Vai, coloca lá o seu nome. Assina. Diz que foi seu. 

Eu sei que não foi. Você sabe que não foi (eles não).

E isso é o bastante. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Sobre competição

[Escrito em 27 de fevereiro de 2020]

Eu sei que seu desejo é competir comigo.

Sei que seu desejo é ter ele todo para você.

Mas não vim para competir. Apenas para amar. E ser amada.

E como amo. Você, é provável, não saiba o que é isso.

Amor recebido. Amor dado. Amor trocado.

Você diz: "te amo". Mas não ama.

Você bate. Fere. Manipula. Violenta.

Faz isso com ele. E com ela. Desde crianças.

Mas eu já entendi você. Sequer sou capaz de ME entender por inteiro.

Não quero, também, entendê-la por inteiro.

Nem sei se quero ganhar ou perder. Não estou jogando. Não sou boa com jogos.


terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Sobre Tchaus

[Escrito em 02 de janeiro de 2015]

Oi
Eu nunca soube dizer Tchau direito.
Sempre quis abraçar todo mundo.
Nunca sei / gostei de me despedir.

Quando as despedidas acontecem, eu levo meses me despedindo.
Como foi com aquela que nem precisa dizer seu nome.

Que eu escrevi infinitas cartas, me despedindo.
E, quando ela de fato, foi, eu sequer consegui dizer "tchau"?

Hoje, houve um pedido de tchau.
Ainda que sutil.

E eu, no impulso, não soube dizer "vai com Deus".
Eu disse: "vem".

A pergunta é: será que veio mesmo?
Ou eu, que não consegui lidar com a possível ausência...?
Lido com a "meia-presença"?

Será que é assim que é?

Tou aqui, pensando.

Acho que você vai de novo.
Embora, digo.

E, ainda que doa.
Eu deixarei ir.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

L.

[Escrito em 22 de outubro de 2014]

L.

Eu queria escrever uma carta de despedida.
Dizer tchau.

Mas a covardia me alimenta.
Coragem é o inverso da covardia?
Coragem é agir com o coração.
É só o que eu tenho feito, aliás.

Seria, esta, uma carta raivosa? Rancorosa?
Ou apenas um Adeus.

Mas eu tenho medo.
De não sentir saudades.
De dizer tchau e não ir.
De dizer vem e não querer receber.

Então, eu fico onde estou.
Aqui.
Ou lá.
Não importa.
Na verdade, importa.

Não é casa onde vivo.
Casa sou eu. 

Então, eu fico.
Mas a gente não se vê mais.
Ver = enxergar?
Nem aqui, nem lá. Nem em qualquer lugar.

L.



domingo, 28 de fevereiro de 2021

Vocês não conhecem ela

[Escrito em 28 de fevereiro de 2021]

Vocês não conhecem ela. E falam. Falam. Falam. 

Ainda hoje, apesar da proximidade, eu a conheço ela. Não por inteiro. Não toda, mas um pouco mais que vocês.

Ainda que a gente nunca se conheça a gente mesmo por inteiro, ela se conhece mais do que muitos de vocês se (des)conhecem de vocês mesmos.

Ela diz "eu sei" quando recebe um elogio. Porque ela se sabe mesmo.
Ela passou por coisas na vida. E isso a deixou meio longe. De vocês. Mas não dela mesma. 
Ela é crítica. Pensa e diz. Sinceramente.
Gosta das regras. Dos formatos claros. 
Gosta da honestidade e transparência. 
Tem um jeito um pouco ácido (já disse a vocês que prefiro as comidas e bebidas ácidas?).
Mas, além da acidez, tem um jeito muito amoroso. 

Viveu coisas na vida. Vive coisas na vida. Dessas que vocês nem sabem. Tudo isso - as coisas que viveu, as pessoas que ganhou e perdeu - a formam quem ela é hoje.
Mas é isso: vocês não a conhecem. Só ficaram com a treta. Eu também tinha ficado.

Ela?
Dá. Dá. Dá. Sem nem precisar de "obrigada" do outro lado. 
Dá livros. Dá carinho. Dá preocupação. Dá troca. Dá conversa. Dá "como você está?"

O que vocês viram (eu escrevi "firam", antes de viram, olhem só, junguianos!) foi uma fatia dela. Uma fatia fina. Há um tempo bem longe atrás.

Eu nem sei como e nem por quê me permiti abrir a janela e a porta e me aproximar. Não sou dessas. Tenho um lado intransigente. Agressivo. Turrona. Teimosa. Mas nem lembro os motivos (a memória dela é melhor que a minha). 

Sei que hoje somos próximas.

O nosso elevador, só a gente está. É uma amizade em segredo. 
Não que a gente precisa esconder.
Mas não precisa alardear. 

Não precisa de "te amos" fúteis e bobos.
Não precisa pedir e nem doar.

Só estamos ali - à distância - mas na proximidade que nos permite. 

Não precisa gritar pros lados. Nem ela. Nem eu.
Vocês não precisam conhecê-la. Só não a julguem. 

Porque a capa é só a capa.
Do lado de dentro tem tanta coisa bonita que... ah... se vocês conhecessem... iam querer era estar naquele elevador também!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Hoje eu quero poder escrever o que eu sinto

Hoje eu quero poder escrever o que sinto, sem a preocupação de que o meu lamentar irá atrair energias negativas para o meu redor.

Têm sido dias difíceis. Me mudei para uma casa de um quarto apenas, e estamos morando somente eu e o meu pequeno Davi, que agora está com 4 anos. O Daniel, que está com praticamente 16, está morando com o Marcos, meu ex-atual-amante-companheiro num quitinete, porque meu convívio com meu filho chegou à beira do insuportável. Tudo estaria até bem, se não fosse o fato de o Marcos não ter dinheiro pra nada, e eu ter que sustentar duas casas. Estou preocupada com o Daniel, com a alimentação dele, com os estudos (ele repetiu de ano de novo), com a vida dele.

Eu gosto de morar aqui. No meio do mato. Mas tudo é longe.

Pedalo 12km por dia, levando e buscando o Davi na escola, e tento fazer o melhor com isso, procurando me alegrar durante o percurso, me auto convencendo de que o exercício me fará muito bem.

Não suporto esse calor e esse sol na minha cara diariamente. O protetor solar de 30 não faz a menor diferença e, se eu continuar assim por mais alguns dias, acho que ficarei com a aparência de uma mulher de 50 em breve.

Tenho procurado emprego. Qualquer emprego que me pague pelo menos dois mil por mês. Já dá pra pagar o aluguel, a comida e as contas, e consigo trabalhar com arte, que é o que mais gosto de fazer.

Hoje vence o meu aluguel e eu não tenho dinheiro para pagar. Pensei em comprar um isopor e vender sacolé de cachaça nos blocos de carnaval, que começa amanhã, mas não tenho dinheiro para o isopor também.

Minha mãe me manda mensagens pelo whatsapp quase que diariamente, pedindo ajuda para liquidar com o empréstimo que ela fez para me ajudar. Trinta mil ao todo. Eu disse a ela que os últimos dois mil que me emprestou seriam para limpar o meu nome no Bradesco, mas a verdade é que eu não limpei nome nenhum, mas paguei algumas pessoas que eu devia. Continuo devendo a outras.

Minha nova vizinha me emprestou vinte reais para comprar um galão de água. Eu não pedi, foi ela quem ofereceu. Minha vizinha nova. Acabei de me mudar.

Devo quatro mil ao Felipe, desde o começo do ano passado. Era um empréstimo para ser quitado em dois meses. Durmo e acordo pensando nisso.

Durante alguns meses, antes de vir pra cá, descobri que o Marcos é um mentiroso enorme e que estava me enganando em relação à questão do empréstimo que ele iria pegar junto ao Bradesco. Dei dinheiro a ele, mas ele pagou outras coisas, e mentiu até o final. Já o perdoei por ser tão mentiroso, todas as pessoas têm coisas boas e ruins a oferecer, mas sei que não posso confiar nem contar com ele nesse quesito.

Talvez por causa desse stress todo, ou por causa de sexo sem camisinha com o Marcos, ou por estar andando de bicicleta como se não houvesse amanhã, eu estou com uma infecção vaginal que me assusta. Não tenho plano de saúde.

Estou lavando as minhas roupas na mão, porque tive que vender a máquina de lavar. Eu, que já não tinha vaidade, estou, rapidamente, me transformando numa roceira. Pés e mãos grossos, pele queimada de sol, cabelo sempre preso, maquiagem zero, coisas mais importantes pra pensar.

Têm sido difícil sair da cama de manhã. Tem sido difícil fazer as coisas mais simples, como arrumar a casa depois de uma mudança. Aí vim aqui escrever esse meu lamento, porque guardar no peito sufoca muito.

Tem uma coisa que me pergunto: se a vida é um reflexo das nossas escolhas, será que eu me enganei fazendo as escolhas erradas, quando, na verdade, achava certo? Sem falsa modéstia, sou uma mulher com uma criatividade imensa, sou empreendedora, sou boazinha, ajudo as pessoas no meu caminho, sou até bem honesta, não passo a perna em ninguém, não fujo, procuro me auto analisar sempre, seguro a mão e ajudo da forma que posso, trabalho muito...estou colhendo o que, então? Um monte de merda.

O I Ching que o Rafael jogou pra mim disse que será tudo harmonioso e que o momento agora é de crescer pra dentro. Acalmar, observar e manter o movimento, sem afobação. Estou fazendo isso.

Não quero mais lição de vida por um bom tempo, depois que sair dessa. Peço ao Universo que me dê um descanso porque tá bem árduo pra mim.

Agora vou sair e levar meu pequeno ao parque. Mas juro que minha vontade é dormir.

Agatha

[Todos os nomes foram trocados, para preservar a identidade de cada um dos personagens]

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Sobre psius

Eu era criança, não podia dizer.
Até podia. Mas teria consequências. Na pele. Do lado de dentro. De fora. De todos os lados.

Você me chamava com assobio.
E orgulha-se disso.

"Ainda bem, você sempre teve uma filha obediente".
É, eu era.
E sou.

Obediente e silenciosa. Sempre fui.
Hoje, mais.

Hoje, as palavras super-povoam-me.
Mas eu as guardo para mim.
Nem tudo precisa ser dito.

Nem os assobios.
A liberdade não é segurar / não segurar a criança.

A liberdade é dita no olhar.
Dita na cama, antes de dormir.
Dita dentro de casa. E na rua. E em qualquer lugar.

Liberdade não se ensina. Se apresenta.

Ainda bem, eu aprendi. 

E, com a liberdade e o silêncio - que são meus - eu digo, para você, agora, trinta-e-cinco-anos depois:

Eu preferia ser sempre chamada pelo meu nome.