Hoje eu quero poder escrever o que sinto, sem a
preocupação de que o meu lamentar irá atrair energias negativas para o meu
redor.
Têm sido dias difíceis. Me mudei para uma casa
de um quarto apenas, e estamos morando somente eu e o meu pequeno Davi, que
agora está com 4 anos. O Daniel, que está com praticamente 16, está morando com
o Marcos, meu ex-atual-amante-companheiro num quitinete, porque meu convívio
com meu filho chegou à beira do insuportável. Tudo estaria até bem, se não
fosse o fato de o Marcos não ter dinheiro pra nada, e eu ter que sustentar duas
casas. Estou preocupada com o Daniel, com a alimentação dele, com os estudos
(ele repetiu de ano de novo), com a vida dele.
Eu gosto de morar aqui. No meio do mato. Mas tudo é
longe.
Pedalo 12km por dia, levando e buscando o Davi na escola, e tento fazer o melhor com isso, procurando me alegrar durante o
percurso, me auto convencendo de que o exercício me fará muito bem.
Não suporto esse calor e esse sol na minha cara
diariamente. O protetor solar de 30 não faz a menor diferença e, se eu
continuar assim por mais alguns dias, acho que ficarei com a aparência de uma
mulher de 50 em breve.
Tenho procurado emprego. Qualquer emprego que me
pague pelo menos dois mil por mês. Já dá pra pagar o aluguel, a comida e as
contas, e consigo trabalhar com arte, que é o que mais
gosto de fazer.
Hoje vence o meu aluguel e eu não tenho dinheiro
para pagar. Pensei em comprar um isopor e vender sacolé de cachaça nos blocos
de carnaval, que começa amanhã, mas não tenho dinheiro para o isopor também.
Minha mãe me manda mensagens pelo whatsapp quase
que diariamente, pedindo ajuda para liquidar com o empréstimo que ela fez para
me ajudar. Trinta mil ao todo. Eu disse a ela que os últimos dois mil que me
emprestou seriam para limpar o meu nome no Bradesco, mas a verdade é que eu não
limpei nome nenhum, mas paguei algumas pessoas que eu devia. Continuo devendo a
outras.
Minha nova vizinha me emprestou vinte reais para
comprar um galão de água. Eu não pedi, foi ela quem ofereceu. Minha vizinha
nova. Acabei de me mudar.
Devo quatro mil ao Felipe, desde o começo do ano
passado. Era um empréstimo para ser quitado em dois meses. Durmo e acordo
pensando nisso.
Durante alguns meses, antes de vir pra cá, descobri
que o Marcos é um mentiroso enorme e que estava me enganando em relação à
questão do empréstimo que ele iria pegar junto ao Bradesco. Dei dinheiro a ele,
mas ele pagou outras coisas, e mentiu até o final. Já o perdoei por ser tão
mentiroso, todas as pessoas têm coisas boas e ruins a oferecer, mas sei que não
posso confiar nem contar com ele nesse quesito.
Talvez por causa desse stress todo, ou por causa de
sexo sem camisinha com o Marcos, ou por estar andando de bicicleta como se não
houvesse amanhã, eu estou com uma infecção vaginal que me assusta. Não tenho
plano de saúde.
Estou lavando as minhas roupas na mão, porque tive
que vender a máquina de lavar. Eu, que já não tinha vaidade, estou,
rapidamente, me transformando numa roceira. Pés e mãos grossos, pele queimada
de sol, cabelo sempre preso, maquiagem zero, coisas mais importantes pra
pensar.
Têm sido difícil sair da cama de manhã. Tem sido
difícil fazer as coisas mais simples, como arrumar a casa depois de uma
mudança. Aí vim aqui escrever esse meu lamento, porque guardar no peito sufoca
muito.
Tem uma coisa que me pergunto: se a vida é um
reflexo das nossas escolhas, será que eu me enganei fazendo as escolhas
erradas, quando, na verdade, achava certo? Sem falsa modéstia, sou uma mulher
com uma criatividade imensa, sou empreendedora, sou boazinha, ajudo as pessoas
no meu caminho, sou até bem honesta, não passo a perna em ninguém, não fujo,
procuro me auto analisar sempre, seguro a mão e ajudo da forma que posso,
trabalho muito...estou colhendo o que, então? Um monte de merda.
O I Ching que o Rafael jogou pra mim disse que será
tudo harmonioso e que o momento agora é de crescer pra dentro. Acalmar,
observar e manter o movimento, sem afobação. Estou fazendo isso.
Não quero mais lição de vida por um bom tempo,
depois que sair dessa. Peço ao Universo que me dê um descanso porque tá bem
árduo pra mim.
Agora vou sair e levar meu pequeno ao parque. Mas
juro que minha vontade é dormir.
Agatha
[Todos os nomes foram trocados, para preservar a identidade de cada um dos personagens]