Eu era criança, não podia dizer.
Até podia. Mas teria consequências. Na pele. Do lado de dentro. De fora. De todos os lados.
Você me chamava com assobio.
E orgulha-se disso.
"Ainda bem, você sempre teve uma filha obediente".
É, eu era.
E sou.
Obediente e silenciosa. Sempre fui.
Hoje, mais.
Hoje, as palavras super-povoam-me.
Mas eu as guardo para mim.
Nem tudo precisa ser dito.
Nem os assobios.
A liberdade não é segurar / não segurar a criança.
A liberdade é dita no olhar.
Dita na cama, antes de dormir.
Dita dentro de casa. E na rua. E em qualquer lugar.
Liberdade não se ensina. Se apresenta.
Ainda bem, eu aprendi.
E, com a liberdade e o silêncio - que são meus - eu digo, para você, agora, trinta-e-cinco-anos depois:
Eu preferia ser sempre chamada pelo meu nome.